setembro 23, 2020

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

"Na casa de meu Pai há muitas moradas..." Jo. 14. 2a

 Foi com essa frase que Jesus instruiu seus seguidores a se protegerem de emoções destrutivas. Antes de apontar para as muitas moradas da casa do Pai, ele disse, "creiam em Deus e creiam também em mim."

      E se essas moradas não forem casas estelares? E se forem somente lugares de reflexão, isto é, paradigmas, ideias, reflexões?

        A casa do Pai é dentro, no ente; ou entre entes, na relação. (Lc. 10.21)

        Ora, cada morada na casa do Pai pode ser diferente das outras moradas. A arquitetura do pensamento ganha contornos de acordo com cada arquiteto que pensa e desenha sua própria morada. Cada um tem seu gosto, desgosto e criatividade pessoal, isto é, suas lentes culturais, dores, pavores e amores.

        Triste coisa é morar na morada dos outros. Não tenho coração de inquilino. 

        Sei que corro o risco de esvaziar  o caráter escatologico do texto bíblico. Mas, as muitas moradas da "Casa do Pai" podem não apontar somente para lugares fora do mundo, mas para as inúmeras e variadas ideias que estruturam a mente e influenciam o comportamento humano no mundo.

        O importante é que cada morada esteja na casa do Pai. Então, porque achar que a minha morada é melhor que sua morada? Porque achar que a morada dos outros tem menos valor que a minha? A minha morada na casa do Pai é somente mais uma morada. A sua morada na casa do Pai é somente mais uma morada... 

        No campo mental, são diferentes as compreensões  de mundo, os estágios de conhecimento e as dimensões do pensamento que caracterizam os seres humanos. 

        Mesmo dentro de uma cultura específica, há subculturas que se conflitam.

        Alguns, na casa do Pai, só conseguem viver em casas conservadoras. Não conseguem deixar a zona de conforto das tradições. A Segurança dos discursos se repetem, sob a chancela do grupo a que pertençem. 

        Assim, em nome da segurança, assumem posturas intolerantes diante de quem mora em casa feita de material mais flexível,  mais inclusiva, mais ventilada, mais aberta à experiência.

        Assim, procure morar bem na casa do Pai e me deixe cuidar de minha própria morada na casa do nosso Pai. Como diz aquele venho cântico. "Não importa a igreja ("morada") que tu és. Se por trás do calvário tu estás... Se o teu coração é igual ao meu, dá-me a mão e meu irmão serás..."

        Estou de olho em sua morada! Não para desvalorizar sua casa, isto é, sua reflexão, seu paradigma, mas para aprender com você e, assim, melhorar a minha morada, minha reflexão, meu paradigma... 

        A casa do Pai é enorme. Nela cabem dois,  três,  dez...


setembro 17, 2020

O Significado Psicológico do Inferno

 "...Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado. No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado. .." Lucas 16:22-23


        Qual o significado psicológico do inferno? Se existe algum, atrevo-me a imaginar.

        Em seu clássico romance: "Brothers Karamazov" (irmãos Karamazov), Dostoevsky coloca na boca do padre Zózima o conceito psicológico do que vem a ser inferno: "O que é inferno? Eu afirmo que é o sofrimento de nunca mais ser capaz de amar."
    
        Ele afirmou isso a partir da parábola do rico e Lázaro.

        Durante sua existência no mundo, o rico ignorou o mendigo Lázaro, que vivia mendigando. Depois de mortos, cada um teve um destino: Lázaro foi levado pelos anjos à presença de Abraão - lugar de absoluto destaque em um banquete oriental - enquanto o rico mergulhou no isolamento eterno, atormentado pelas chamas do inferno.

        De seu lugar de tormento, ele olhava a recepção no céu e via Lázaro imerso no mais perfeito amor comunitário da mesa do patriarca Abraão.

        O rico, em contrapartida, que vivera no mundo cercado de aduladores, sofria no hades (símbolo bíblico do inferno), atolado na mais perfeita solidão, incapaz de amar e ser amado.

        É mesmo um inferno querer amar e não ser mais capaz; querer ser amado e não ter ninguém por perto para lhe tocar a ponta da língua com algum refresco.

        Sim, quando o inferno está dentro de alguém, por mais que queira amar não consegue. Por mais que queira ser amado, repele, porque as pessoas preferem ficar à distância.

        Isso, porque quase tudo que ele pensa, diz e faz, carrega uma certa ardência. E isso afasta os outros de si e provoca maior isolamento.

        De fato, há um abismo intransponível entre a mesa de Abraão - o lugar do amor relacional - e o inferno relacional que sufoca os laços de comunhão.

        Por isso, ame enquanto está vivo! Depois da morte, emocional ou literal, parece não ser mais possível.

        Amar é a missão mais nobre, e a única, que Deus nos deu a realizar em nossa breve vida. Falhar em cumprí-la, é descer sem retorno ao inferno da alma.

        É por isso que grande parte do mundo vive no tormento...

agosto 12, 2020

MAUS INQUILINOS DA ALMA

 E, quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para a minha casa, de onde saí. E, voltando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem piores do que os primeiros. Assim acontecerá também a esta geração má. Mateus 12:43-45

Não quero pensar, inicialmente, em categorias demoníacas no sentido cósmico-sobrenatural, mas em categorias demonizadas de pensamento e comportamento.

       Nesse sentido, todos nós carregamos espíritos imundos. É Claro, uns são mais imundos do que outros. Nossa mente, por exemplo, onde quase tudo começa, pode se transformar em casa de aluguel onde inquilinos do inferno se alojam e aleijam o poder de caminhada do hospedeiro. 

      Tenho visto isto todos os dias no aconselhamento, nas ruas, nas igrejas, nas empresas, enfim, na vida. Já vi tanto que cheguei à seguinte conclusão: a qualidade de nossa vida emocional e relacional é proporcional ao tipo de inquilino que permitimos entrar e morar em nossa mente.

      Entrar e morar são duas fases distintas que se complementam, mas representam estágios diferentes do processo. Nenhum de nós tem o poder de evitar a entrada de espíritos imundos na mente. O fluxo mental não obedece ao patrulhamento da razão. Tem vida própria. Parafraseando Blaise Pascal: a mente tem razões que a própria razão desconhece. Mas, qualquer um de nós pode desenvolver a habilidade de não permitir que visitantes imundos, transformem-se em moradores permanentes. Como assim?

      Quando Jesus diz que devemos vigiar e orar, está nos ensinando o que somente agora, digo, nas últimas décadas, os psicólogos cognitivo-comportamentais ensinam seus clientes a praticar: identificar e substituir os pensamentos destrutivos, colocando em seu lugar pensamentos construtivos.

      Nem sei se imaginam que o apóstolo Paulo também foi precursor das ideias que eles agora defendem: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.” Filipenses 4:8

      Como já  afirmei, todos carregamos na mente, em maior ou menor grau, alguns espíritos imundos que nos fazem adoecer das emoções e das relações.

       Só como muito custo e algumas atitudes, esses espíritos são banidos ou dominados. Mas, sua tendência natural é procurar o caminho de volta. Certos padrões de pensamento criam registros mentais e ativações neuronais que não se apagam facilmente. Dai a tendência de "cair" novamente nas redes do desvio supostamente superado.

      Um exemplo, entre muitos, é o sujeito que se viciou em pornografia, jogo, ou qualquer outro vício. Seu cérebro registrou um padrão de prazer e sua mente tende a buscar repetir a experiência, principalmente, em momentos de tédio e estresse, como forma de superação, ainda que temporária, da frustração.

      Depois do último episódio, ele ou ela promete a si mesmo e a Deus que nunca mais aquilo vai acontecer. Uma semana depois - às vezes menos; às vezes, mais - tudo se repete e o ciclo recomeça. Assim, cada repetição fortalece o padrão na mente, acentua o registro no cérebro e cristaliza o vício. O espírito imundo, cada vez que sai e volta, traz consigo uma cambada, ao ponto de algumas dessas "gangs" só saem com Jejum e oração. 

      Triste da mente que é dominada por pensamentos, emoções e sentimentos demonizados. O comportamento segue o mesmo padrão, pois, como ensinou Jesus: "A boca fala daquilo que o coração está cheio." Por isso, só a mente que cultiva pensamentos que levam a marca de Cristo, é capaz de manter os espíritos imundos da porta pra fora ou, pelo menos, dominados no porão. 

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

"Na casa de meu Pai há muitas moradas... " Jo. 14. 2a  Foi com essa frase que Jesus instruiu seus seguidores a se protegerem de em...