setembro 23, 2020

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

"Na casa de meu Pai há muitas moradas..." Jo. 14. 2a

 Foi com essa frase que Jesus instruiu seus seguidores a se protegerem de emoções destrutivas. Antes de apontar para as muitas moradas da casa do Pai, ele disse, "creiam em Deus e creiam também em mim."

      E se essas moradas não forem casas estelares? E se forem somente lugares de reflexão, isto é, paradigmas, ideias, reflexões?

        A casa do Pai é dentro, no ente; ou entre entes, na relação. (Lc. 10.21)

        Ora, cada morada na casa do Pai pode ser diferente das outras moradas. A arquitetura do pensamento ganha contornos de acordo com cada arquiteto que pensa e desenha sua própria morada. Cada um tem seu gosto, desgosto e criatividade pessoal, isto é, suas lentes culturais, dores, pavores e amores.

        Triste coisa é morar na morada dos outros. Não tenho coração de inquilino. 

        Sei que corro o risco de esvaziar  o caráter escatologico do texto bíblico. Mas, as muitas moradas da "Casa do Pai" podem não apontar somente para lugares fora do mundo, mas para as inúmeras e variadas ideias que estruturam a mente e influenciam o comportamento humano no mundo.

        O importante é que cada morada esteja na casa do Pai. Então, porque achar que a minha morada é melhor que sua morada? Porque achar que a morada dos outros tem menos valor que a minha? A minha morada na casa do Pai é somente mais uma morada. A sua morada na casa do Pai é somente mais uma morada... 

        No campo mental, são diferentes as compreensões  de mundo, os estágios de conhecimento e as dimensões do pensamento que caracterizam os seres humanos. 

        Mesmo dentro de uma cultura específica, há subculturas que se conflitam.

        Alguns, na casa do Pai, só conseguem viver em casas conservadoras. Não conseguem deixar a zona de conforto das tradições. A Segurança dos discursos se repetem, sob a chancela do grupo a que pertençem. 

        Assim, em nome da segurança, assumem posturas intolerantes diante de quem mora em casa feita de material mais flexível,  mais inclusiva, mais ventilada, mais aberta à experiência.

        Assim, procure morar bem na casa do Pai e me deixe cuidar de minha própria morada na casa do nosso Pai. Como diz aquele venho cântico. "Não importa a igreja ("morada") que tu és. Se por trás do calvário tu estás... Se o teu coração é igual ao meu, dá-me a mão e meu irmão serás..."

        Estou de olho em sua morada! Não para desvalorizar sua casa, isto é, sua reflexão, seu paradigma, mas para aprender com você e, assim, melhorar a minha morada, minha reflexão, meu paradigma... 

        A casa do Pai é enorme. Nela cabem dois,  três,  dez...


setembro 17, 2020

O Significado Psicológico do Inferno

 "...Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado. No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado. .." Lucas 16:22-23


        Qual o significado psicológico do inferno? Se existe algum, atrevo-me a imaginar.

        Em seu clássico romance: "Brothers Karamazov" (irmãos Karamazov), Dostoevsky coloca na boca do padre Zózima o conceito psicológico do que vem a ser inferno: "O que é inferno? Eu afirmo que é o sofrimento de nunca mais ser capaz de amar."
    
        Ele afirmou isso a partir da parábola do rico e Lázaro.

        Durante sua existência no mundo, o rico ignorou o mendigo Lázaro, que vivia mendigando. Depois de mortos, cada um teve um destino: Lázaro foi levado pelos anjos à presença de Abraão - lugar de absoluto destaque em um banquete oriental - enquanto o rico mergulhou no isolamento eterno, atormentado pelas chamas do inferno.

        De seu lugar de tormento, ele olhava a recepção no céu e via Lázaro imerso no mais perfeito amor comunitário da mesa do patriarca Abraão.

        O rico, em contrapartida, que vivera no mundo cercado de aduladores, sofria no hades (símbolo bíblico do inferno), atolado na mais perfeita solidão, incapaz de amar e ser amado.

        É mesmo um inferno querer amar e não ser mais capaz; querer ser amado e não ter ninguém por perto para lhe tocar a ponta da língua com algum refresco.

        Sim, quando o inferno está dentro de alguém, por mais que queira amar não consegue. Por mais que queira ser amado, repele, porque as pessoas preferem ficar à distância.

        Isso, porque quase tudo que ele pensa, diz e faz, carrega uma certa ardência. E isso afasta os outros de si e provoca maior isolamento.

        De fato, há um abismo intransponível entre a mesa de Abraão - o lugar do amor relacional - e o inferno relacional que sufoca os laços de comunhão.

        Por isso, ame enquanto está vivo! Depois da morte, emocional ou literal, parece não ser mais possível.

        Amar é a missão mais nobre, e a única, que Deus nos deu a realizar em nossa breve vida. Falhar em cumprí-la, é descer sem retorno ao inferno da alma.

        É por isso que grande parte do mundo vive no tormento...

agosto 12, 2020

MAUS INQUILINOS DA ALMA

 E, quando o espírito imundo tem saído do homem, anda por lugares áridos, buscando repouso, e não o encontra. Então diz: Voltarei para a minha casa, de onde saí. E, voltando, acha-a desocupada, varrida e adornada. Então vai, e leva consigo outros sete espíritos piores do que ele e, entrando, habitam ali; e são os últimos atos desse homem piores do que os primeiros. Assim acontecerá também a esta geração má. Mateus 12:43-45

Não quero pensar, inicialmente, em categorias demoníacas no sentido cósmico-sobrenatural, mas em categorias demonizadas de pensamento e comportamento.

       Nesse sentido, todos nós carregamos espíritos imundos. É Claro, uns são mais imundos do que outros. Nossa mente, por exemplo, onde quase tudo começa, pode se transformar em casa de aluguel onde inquilinos do inferno se alojam e aleijam o poder de caminhada do hospedeiro. 

      Tenho visto isto todos os dias no aconselhamento, nas ruas, nas igrejas, nas empresas, enfim, na vida. Já vi tanto que cheguei à seguinte conclusão: a qualidade de nossa vida emocional e relacional é proporcional ao tipo de inquilino que permitimos entrar e morar em nossa mente.

      Entrar e morar são duas fases distintas que se complementam, mas representam estágios diferentes do processo. Nenhum de nós tem o poder de evitar a entrada de espíritos imundos na mente. O fluxo mental não obedece ao patrulhamento da razão. Tem vida própria. Parafraseando Blaise Pascal: a mente tem razões que a própria razão desconhece. Mas, qualquer um de nós pode desenvolver a habilidade de não permitir que visitantes imundos, transformem-se em moradores permanentes. Como assim?

      Quando Jesus diz que devemos vigiar e orar, está nos ensinando o que somente agora, digo, nas últimas décadas, os psicólogos cognitivo-comportamentais ensinam seus clientes a praticar: identificar e substituir os pensamentos destrutivos, colocando em seu lugar pensamentos construtivos.

      Nem sei se imaginam que o apóstolo Paulo também foi precursor das ideias que eles agora defendem: “Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.” Filipenses 4:8

      Como já  afirmei, todos carregamos na mente, em maior ou menor grau, alguns espíritos imundos que nos fazem adoecer das emoções e das relações.

       Só como muito custo e algumas atitudes, esses espíritos são banidos ou dominados. Mas, sua tendência natural é procurar o caminho de volta. Certos padrões de pensamento criam registros mentais e ativações neuronais que não se apagam facilmente. Dai a tendência de "cair" novamente nas redes do desvio supostamente superado.

      Um exemplo, entre muitos, é o sujeito que se viciou em pornografia, jogo, ou qualquer outro vício. Seu cérebro registrou um padrão de prazer e sua mente tende a buscar repetir a experiência, principalmente, em momentos de tédio e estresse, como forma de superação, ainda que temporária, da frustração.

      Depois do último episódio, ele ou ela promete a si mesmo e a Deus que nunca mais aquilo vai acontecer. Uma semana depois - às vezes menos; às vezes, mais - tudo se repete e o ciclo recomeça. Assim, cada repetição fortalece o padrão na mente, acentua o registro no cérebro e cristaliza o vício. O espírito imundo, cada vez que sai e volta, traz consigo uma cambada, ao ponto de algumas dessas "gangs" só saem com Jejum e oração. 

      Triste da mente que é dominada por pensamentos, emoções e sentimentos demonizados. O comportamento segue o mesmo padrão, pois, como ensinou Jesus: "A boca fala daquilo que o coração está cheio." Por isso, só a mente que cultiva pensamentos que levam a marca de Cristo, é capaz de manter os espíritos imundos da porta pra fora ou, pelo menos, dominados no porão. 

maio 26, 2016

A PRESENÇA E AUSÊNCIA DO DEUS PESSOAL

Em meu tempo devocional de oração, pouco me preocupava o fato de estar ou não sendo ouvido por Deus 
numa perspectiva pessoal. O que importava era a minha alma que se lançava ao Espírito, e isso era o suficiente. Mas, em muitas ocasiões achei que escutava a voz de Deus e em seguida agi a partir dessa escuta subjetiva. No cotidiano, entretanto, muitas dessas falas, supostamente divinas, não se confirmaram de fato, o que me leva a pensar que muitas de minhas subjetivações, “made in” Deus, não passam disso: subjetivações. Dai minha desconfiança quando escuto no evangeliquês corrente alguma expressão do tipo: “Deus me falou." 

        Nos últimos anos, devido à minha necessidade imperiosa de transcendência,  desenvolvi uma certa decepção por não ser tratado por Deus numa perspectiva de comunicação interpessoal instantânea, como duas pessoas interagindo em tempo real. Confesso que algumas vezes me recusei a construir frases ao orar porque não via razão em falar, falar, falar e nada escutar como resposta imediata e em linguagem direta e inteligível.  Meu sentimento hoje, porém, é de que essa necessidade de escutar Deus, num nível de comunicação direta, pessoal  e  quase audível, é um infantilismo sem sustentação no mundo real. Deus não tem de me responder num nível pessoal como se fosse alguém de carne e osso. Por isso, para o bem da saúde psicológica  e espiritual do devoto, é importante entender que a relação com Deus deve transcender o eixo pessoa-pessoa e alcançar a maturidade do nível pessoa-em-Espírito (Gl. 5:16). O termo pessoa-em-Espírito implica em responsabilidade histórica, pois ser pessoa é ser pessoa-no-mundo. É ser parte de uma teia de relações. Mas somente quando esse imperativo de ter-de-viver-no-mundo dá lugar à fé, é que nasce a consciência de ser-para-além-do-mundo. Fé, portanto, é um salto para fora da história a partir da história e, ao mesmo tempo, um constante exercício de revisão e correção da história a partir de seu Fundamento não-histórico.

        Mas, afinal de contas, Deus é pessoa ou não-pessoa? Jesus ensinou que “Deus é Espírito” (Jo. 4.24). Espírito não é pessoa, embora tendo consciência-de-ser ou, como diria Paul Tillich, consciência de ser o Fundamento do Ser. Quando Moisés quis saber o nome de Deus, para legitimar politicamente a sua missão de libertar os Hebreus do Egito, ele ouviu: "Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês." Não creio que Deus seja mera energia sem pessoalidade. Nesse caso, pessoalidade não é o mesmo que personalidade. Qual é a diferença? Pessoalidade é a capacidade de estabelecer relação, afetar e, num certo sentido, ser afetado na relação. Personalidade é um conjunto de características de uma pessoa, em particular.  A presença de Deus não é necessariamente presença pessoal,  mas presença implícita. Presença pessoal implica numa pessoa que pode estar ou não geograficamente presente - aqui, presença e ausência se alternam no nível perceptivo. Por outro lado, presença implícita implica em ininterrupta presença, mesmo quando não sentida ou percebida. Por exemplo: No salmo 139 o poeta é capaz de intuir a presença implícita de Deus quando diz:

“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos. Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor. Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir. Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá.Salmos 139:1-10 (NVI)

Deus deve ser intuido como pessoa somente na medida em que nos afeta pessoalmente. Quando a relação nos afeta no profundo, para além da dimensão cognitiva, isto é, quando o conhecimento de Deus atinge o existencial, e não fica somente no plano teórico, é que podemos dizer que a relação é pessoal; não porque Deus seja pessoa, mas porque nos afeta pessoalmente. Nesse sentido, o “Eu Sou” se identifica com aqueles que são afetados por sua presença. Na sequência da apresentação de suas credenciais a Moisés, Deus arrematou: "Diga aos israelitas: O Senhor, o Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, enviou-me a vocês. Esse é o meu nome para sempre, nome pelo qual serei lembrado de geração em geração" (Ex.3:15). O “Eu Sou” transcendente, inominável e insondável  tem seu rastro na história e na memória primordial de quem crê.

        Se eu quero um Deus pessoal, sua presença é intermitente, isto é, pontuada por ausências. Sinto sua presença quando minha subjetividade está alinhada. Quando não, passo a sofrer de  solidão teológica, o que significa dizer que minha relação com Deus depende do humor do ambiente inter-intra-relacional, e até dos hormônios que afetam o funcionamento de meu sistema nervoso central. Por outro lado, se quero Deus como Espírito, sua presença é imediata, isto é, não há ausências, mesmo quando minha subjetividade está desalinhada. Assim, não sou mais envelopado pela solidão teológica, o que significa dizer que minha relação com Deus não depende mais do humor do ambiente inter-intra-relacional, nem dos hormônios que me afetam. Como ser bio-psicossocial e espiritual, não preciso sentir sua presença para cultivar a alegria de viver, nem preciso sentir sua ausência para cair no desespero. Graça e des-graça se alternam na existência, quer eu sinta a presença de Deus ou não. 

        A subjetividade é essencial, mas o subjetivismo, ou seja, o culto à não-razão, pode ser uma arapuca. Portanto, digo a mim mesmo e a quem mais quiser me escutar: siga o fluxo do divino que lhe guia a partir do espírito, mas ancore suas decisões também no bom senso e na capacidade racional de avaliar a realidade: escolher, refletir, corrigir e recomeçar. No mais, não cultive o imperativo de ter de sentir Deus, apenas siga-o no rastro do Homem de Nazaré. 

junho 29, 2014

A FALÁCIA DO CONTROLE ABSOLUTO

A psicanálise de Freud, a psicologia profunda de Jung e agora a neurociência mostram que nosso comportamento de superfície é quase sempre produzido nas profundezas, na não-razão: como disse Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece."Freud e Jung chamam esse abismo de inconsciente. A neurociência recentemente o batizou de não-consciência. O que importa é que todos começam a reconh ecer que quase nenhum controle temos sobre nossa vida consciente. É da mente não-consciente que sobem os impulsos para o comportamento manifesto.

     Vejam que a Bíblia mostra exatamente a mesma coisa. O ser humano foi enganado por uma serpente e o próprio Deus foi quem confundiu a linguagem no episódio da Torre de Babel. Abraão recebeu uma ordem para deixar a sua parentela e partir rumo ao desconhecido. Depois recebeu a graça de gerar um filho para alguns anos mais tarde ser impelido a usá-lo em sacrifício. Moisés foi tirado do deserto e mandado quase à força para o Egito. Jó teve a vida rasgada por causa de uma disputa entre Deus e Satanás. Tudo de cima pra baixo, ou de dentro pra fora, como queiram.

     Antes da Bíblia, Hesíodo e Homero já diziam a mesma coisa através de seus poemas carregados de deuses que decidem, entre si, o destino dos homens. Vendo assim, a consciência parece ser tão somente uma espécie de parque de diversões onde forças da luz e das trevas treinam tiro ao alvo, normalmente com balas de borracha, mas, às vezes, com munição letal.

    Decidem por nós, dentro e fora de nós. Além dos sentimentos e condutas que são produzidos do lado de dentro, temos os acidentes e os incidentes que ocorrem do lado de fora. Resultado: vivemos constantemente ameaçados, tanto fora quanto dentro. Daí, vem o desespero e a ansiedade. Parece mesmo que fomos, de propósito, deixados sem controle de quase tudo que nos cerca e nos habita. Assim, ao homem não resta outra alternativa senão uma dessas três: a fé, a não-fé ou o suicídio.

     Até quando pensa estar decidindo ter fé, não é ele mesmo quem está realmente decidindo. Jesus afirmou: "Ninguém vem a mim, se o Pai não o trouxer." E quando decide não ter fé, também não é ele quem tem o controle dessa decisão. Segundo a Bíblia, "o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos para que não creiam." Ser crente ou ateu, nesse caso, é uma questão divina, ou demoníaca, não humana. Que absurdo! Ser humano, então, não é uma questão de ser, mas de não ser: não ser capaz de ser, de decidir, de exercer controle. Talvez o único controle que tem é o de tentar controlar o controle do controlador. Dai surgiu a religião, as artes mágicas e as invocações.

     Uma outra alternativa é a de reconhecer que não tem controle e de se entregar a um controle que não se submete ao seu controle, mas controla até seu reconhecimento de não ter controle e de se entregar ao Controlador. Isto é fé. Bem, nesse ponto já estou quase admitindo a doutrina calvinista da predestinação. Mas, essa doutrina diz que o ato de reconhecer que não tem controle e entregar-se ao Controlador é fruto de uma "graça irresistível" e não da voluntária decisão do crente. Talvez, por isso, alguns prefiram, como eu, a ilusão de Armínio: a doutrina da liberdade de escolha: o tal livre arbítrio. Desculpem, não tenho escolha: esse assobio arminiano me seduz e me controla mais que o assobio de Calvino, pelo menos, por enquanto!

abril 11, 2014

VIRTUDE PARA O MUNDO E PARA O PÓS MUNDO

Virtude para os gregos era a fuga dos extremos, o caminho do meio, a prudência, a moderação. Mais tarde, os cristãos, agregaram o conceito grego de virtude ao conceito de humildade e serviço ensinado por Jesus.
Já para Maquiavel, virtude é a qualidade do líder (Príncipe) que sabe se estabelecer e se manter no poder, custe o que custar.

Virtude para o cristão é serviço como favor ao próximo. Para os maquiavélicos, cristãos ou não, é a capacidade de dobrar o próximo a seu favor, de preferência, por persuasão e argumento, mas se não der certo, que seja no cacete. Nem sempre as cacetadas são físicas, mas políticas, sutis e travestidas de "amor" ao próximo.

A virtude cristã é o caminho mais difícil, menos lucrativo, mais apertado em quase todos os sentidos. Até pagar as contas básicas do cotidiano fica mais complicado. O outro tipo de virtude engorda a conta bancária, atrai amigos de ocasião e os holofotes sociais, por que a porteira é larga e muitos são os que entram por ela, inclusive, muitos que dizem andar no caminho estreito, mas que, na prática, estão mesmo é na manada.

Enquanto isto a gente se segura na esperança de que o caminho apertado é a rota certa para o céu. Mas, o céu é depois da morte que a cada dia funga mais perto no cangote. Diante disso, os maquiavélicos, riem de nós, até porque aqui na terra se dão muito bem e basta levantar a mão numa igreja de crente, depois de um sermão emocionalmente tocante, para garantir também as "ruas de ouro no céu." O cabra se dá bem aqui e também lá, dizem os inventores dessa facilidade teológica,  que adoram contabilizar o número dos que foram salvos no último domingo ou na última cruzada evangelística.

Ser cristão parece ser, às vezes, ter que viver numa prisão cinco estrelas, esperando uma mansão que está além das estrelas. Bom, deixe-me terminar, porque já estou passando do limites que o primeiro tipo de virtude me impõe. Tá vendo! Estou preso. Será que foi por isso que Paulo disse que era um "prisioneiro de Cristo?"

julho 29, 2013

O FUTURO DA ESPIRITUALIDADE

Depois de ler "The future of Faith", de Harvey Cox, consegui sistematizar melhor uma inquietação que abrigo no coração acerca de minha devoção pessoal e minha missão pastoral.

A espiritualidade relevante para os tempos atuais tende a ser:

1. Menos doutrinária e mais experiencial.

As pessoas estão cansadas da "defesa da fé." Elas tem fome de experiência de fé; de encontro com o sagrado; de mergulhar no mistério. Uma vez que o sagrado e o mistério só se mostram através dos símbolos, a igreja precisa resgatá-los em sua liturgia e prática.

Como isso poderá ser feito. Não sei, confesso. Símbolos não são produzidos por vontade consciente. Eles vem a nós e nós os recebemos, ou não. Eles são autônomos, "numinosos." Defendo para isso, uma cultura eclesial de batismo e uma reformulação do ritual da Ceia do Senhor... Para começar.

2. Menos conceitual e mais atitudinal.

Hoje é muito mais clara a necessidade de viver de acordo com a expressão de Jesus: "Pelos frutos os conhecereis...Para que vejam as boas obras de vocês"; que tem eco em Tiago: "Que adianta alguém dizer que tem fé se não tem obras?"


Não seria o caso, da igreja repensar Lutero a partir do princípio protestante que ele mesmo inaugurou. Para mim, a Reforma não é um evento acabado, mas continuamente aberto...

3. Menos bairrista e mais dialógica.

Já passou o tempo dos coronéis e seus currais da verdade. A Verdade não é patrimônio de um grupo, é um Caminho para caminhantes sem território para defender ou ídolos para legitimá-lo.

Cristo é o caminho, e foi ele quem disse aos que se achavam donos da verdade: "Publicanos e prostitutas entrarão primeiro que vocês no reino de Deus."

É preciso estar aberto ao diálogo com o outro que pensa e age diferente. Acolher, conversar e debater, sem bater nem abater, é fundamental. Mesmo que decidamos não caminhar na mesma trilha...

maio 29, 2012

BATISMO POR IMERSÃO OU ASPERSÃO: O QUE DIZIA A IGREJA PRIMITIVA?

Didaquê é o nome de um pequeno manual produzido pela igreja, composto entre o final do primeiro século , e o início do segundo século.

Era o equivalente a nosso atual "Regimento Interno" e tinha 3 partes: Licões cristãs, rituais (batismo e Ceia, por exemplo) e a disciplina organizacional da igreja.

Sobre a controvérsia do batismo, ou seja, se o certo é batizar por imersão, ou por aspersão, no capítulo sete está escrito: 

"No que concerne ao batismo, batizem desse modo: Batizem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em água viva [àgua corrente: rio*]. Mas se não tiver água viva, batizem em outra água; e se não puder ser em água fria, que seja em água morna. Mas,, se não tiverem nenhuma dessas águas, derramem água, três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."

Eu ainda era pastor da Emanuel quando batizei um irmão que estava no hospital. Ele não podia andar e dava sinais de que não sairia vivo daquele leito. Sua filha me confidenciou que o maior desejo dele era não morrer sem ser batizado.

Decidi batizá-lo ali mesmo. Reuni a família ao redor da cama, pedi uma bacia com água e o batizei por aspersão. 

Dois dias depois, ele faleceu.

Escrevi sobre a experiência, e o texto foi publicado em O Jornal Batista. Voces já podem imaginar que sofri retaliação! Doeu, mas serviu para cimentar, de vez, minha convicção de ter feito a coisa certa.

Depois de ler a Didaquê, fiquei contente, ao constatar, que a igreja herdeira imediata da tradição apóstólica teria me dado apoio. 

*Grifo meu

dezembro 13, 2010

AFORISMOS I

                                                        1
 "O filho mais moço...Partiu para uma terra distante e ali desperdiçou a sua fazenda...E começou a padecer necessidades...E, levantando-se, foi para seu pai..." Lc. 15:11ss. Só se perde quem busca; só cresce no extravio quem tem a coragem de admitir o erro; só recobra a vida quem se eleva acima dos porcos; só é recebido quem retorna. A salvação não está na permanência, mas no retorno humilde ao ponto-de-partida.

                                                               2.

"Não julgueis para que não sejais julgados..." Mt. 7:1. O princípio de "causa e efeito" é parte das grandes religiões, incluindo o cristianismo. Em nosso caso, a doutrina da salvação pela graça diminue o impacto do tema sobre nossa ética, tanto no plano individual, quanto no coletivo. Todavia, ensinar que "tudo aquilo que o homem semear, isso também ceifará" (Gl. 6:7), poderia salvar a próxima geração de "crentes."

                                                                3.

Pensando na relação da igreja com a cultura: a igreja que julga a cultura, deve necessariamente julgar a si mesma, porque ela é parte da cultura que julga. Seu grande problema é que estica o dedo para condenar o mundo e se esquece de pronuciar a sentença contra sua própria face degenerada. Se começar a praticar o autojulgamento, contribuirá para salvar a próxima geração de crentes.

                                                                 4.

Qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está?" I Cor. 2:11. Nosso espírito (self) conhece nossos desejos e sentimentos. Paulo o chama de "homem interior" Ef.(2:16); Tillich, de "razão profunda." De fato, quem entra pela porta do seu "eu" profundo, via divã, trabalho com sonhos, meditação, oração, ou tudo isso junto, acessa informações sobre si mesmo que sua razão desconhece
                                                               5.

a alma individual e a alma coletiva se parecem muito, pois, o todo é a somatória das partes. O que encontramos no coração do homem, encontramos também no coração social: o claro e o escuro, a superfície e o profundo, a doçura e a violência, a santo e promíscuo...

                                                               6.                       

"...Porque, quando estou fraco, então, sou forte." II Cor. 12:10. Paulo já mostrava em seu tempo o que Carl Jung afirmaria no século XX: aquilo que temos na mente de superfície é compensado por um conteúdo oposto na mente profunda. Nesse sentido, quando nossa consciência está em fraqueza, nosso inconsciente nos comunica força, tentando promover o equilíbrio psíquico, sem o qual, viver seria um inferno

                                                                 7.
"Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal..." Mt. 5:39. Jesus ensinou que não devemos resistir ao mal, usando o mal, mas com ações não esperadas pelo mal (Mt.5:40-42). Nesse rastro, Gandhi e M. Luther King Jr., nos ensinaram o método da "resistência não-violenta." Eles entenderam que poder e violência se amam, e o método do "olho por olho" daria à logística do poder, mais poder, com mais sede de sangue.


                                                               8.

"E sendo por divina revelação avisados em sonho...Partiram para sua terra..." Mt. 2:12. Os sonhos vem de uma região de nossa psique, o self, que faz fronteira com a dimensão espiritual, nosso fundamento. O self é o portal de comunicação entre o orgânico e o espiritual, portanto, escutá-lo, também, pelos sonhos, pode nos fazer afirmar, como Jacó: "Deus está neste lugar, e eu não sabia." Gn. 28:16

                                                            9.
"Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor." Lm. 3:26. De tempos em tempos, Deus leva seus filhos ao deserto para lhes falar ao coração. Isto se faz necessário, pois, no barulho dos aplausos, sob holofotes e mimos, a voz de Deus é sufocada. Porém, no exílio, a energia vem da esperança, e o encontro com Deus ocorre no silêncio da graça soprada na caverna.
















setembro 05, 2010

PSICOLOGIA DA CONVERSÃO RELIGIOSA

“Na verdade, na verdade, te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.” 
  Jo. 3:3


Quando criança aprendi que a salvação pode ser contada nos cinco dedos: “Eu pequei, Deus me ama, Cristo morreu por mim, eu aceito, estou salvo.” Simples, assim. Entretanto, o “novo nascimento”, obra da conversão, sempre foi um mistério compreendido como fenômeno transcendente, isto é, como ação de Deus para salvar o homem “das trevas para sua maravilhosa luz.”

William James, pai da psicologia americana, define conversão como um processo progressivo (“volitional type”), ou de súbita rendiçao do self (“self-surrender type”), em que ideias periféricas se deslocam para o centro da estrutura mental. E se essa alteração tiver um componente emocional forte, torna-se hábito e caracteriza a transformação tão exaltada na pregação. O contrário, também é verdadeiro, ou seja, sem um componente fixador forte, o que hoje é central, pode rapidamente ceder lugar a outro complexo de ideias e o vigor religioso se perde. Basta ler a parábola do semeador para compreende melhor esse processo.

Por esse viés, podemos entender a diferença entre conversão e adesão. Adesão religiosa é apenas a decisão do ego de se apegar a uma estrutura religiosa que lhe facilite alcançar objetivos na vida. Em vez de conversão para o self , o ego salta para conquistar o mundo de fora. É aquilo que Gordon Alport chamou de “atitude religiosa extrínseca”, isto é, o sujeito pratica a religião, porque leva com isso alguma vantagem, psicológica e, ou social. Não porque ama a Deus, e pratica a devoção como “atitude religiosa intrínseca”, mas pelo que pode colher para si ao vincular-se a um grupo religioso.

Por outro lado, a Psicologia Profunda afirma que conversão genuína é mais do que deslocamento de conteúdos mentais periféricos para o centro da estrutura da mente. A conversão é a reconciliação do ego com o Pai que habita as profundezas; com o Espírito, no inconsciente. A salvação só se dá com a re-união dos opostos nas regiões celestes da psique.

A parábola do filho pródigo ilustra muito bem esse processo: o ego (filho mais moço) fere a unidade da casa (psique), ao se descolar do Pai (queda), “ganha o mundo, mas perde a alma”, e da pocilga (condenação), cai em si. Arrependido, se levanta e caminha de volta ao lar (conversão); é recebido pelo Pai, e a unidade da casa é restabelecida, porque ele “estava morto e reviveu (novo nascimento), tinha-se perdido e foi achado.” No final, quando a parábola diz que “começaram a alegrar-se” indica que a vida abundante de Jesus (Jo. 10:10)  -  autoatualização para Rogers,  autorealização para Maslow e  “individuação”  para Jung -  é o resultado dessa conversão.

Nesse sentido, a saga redentora do Cristo tem um correspondente psicológico. Isto pode ser compreendido ao parafrasearmos, em linguagem psicológica, Filipenses 2:1-10: De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que sendo em forma de Self, não teve por usurpação o ser igual ao Self, mas aniquilou-se a si mesmo (queda voluntária) tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante (encarnação) ao ego, e achado na forma de ego, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz...” Assim, o mito da redenção, tem menos cheiro de crueldade sanguinária de um Deus que exige reparação violenta, e passa a significar a morte voluntária do ego e sua ressurreição para uma vida glorificada (Fil. 2:9,10).

A cruz é central na conversão porque é nele que o ego é sacrificado. É nesse calvário existencial que ocorre a morte da autonomia egóica. A autonomia dá lugar a teonomia, porque o ego caído não pode ver o reino de Deus sem um novo nascimento, isto é, sem que seja nascido do Espírito (Jo. 3:5,6),  revestido da espiritualidade perdida (Ef. 2:5). O novo nascimento é a ressurreição do ego num corpo glorificado (novo ser), espiritual, em vôo para o alto (Col. 3:3), porque a ressurreição demanda a ascenção ao lugar de origem (Ef. 2:6).

É nesse sentido que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Ao seguir o caminho da cruz, e somente por ele, o ego re-encontra o Pai e celebra a vida, pois, cortado da videira-self, nada pode fazer (Jo. 15:4,5), a não ser, se debater para “ganhar o mundo inteiro” e adoecer das psicopatologias e psicossomatologias da vida cotidiana. Assim, é bem melhor para o ego morrer voluntariamente a morte de cruz e nascer de novo para uma vida nova, retomando a sintonia com o mundo de dentro, onde está o novo Éden. Ef. 2: 16


Referências bibliográficas

James, WILLIAM. The Varieties of Religious Experience. New York, Barnes and Noble, 1994

Alport, GORDON. Becoming – Basic Considerations for a Psychology of Personality. Clinton - University of Yale Press, 1955

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

"Na casa de meu Pai há muitas moradas... " Jo. 14. 2a  Foi com essa frase que Jesus instruiu seus seguidores a se protegerem de em...