junho 29, 2014

A FALÁCIA DO CONTROLE ABSOLUTO

A psicanálise de Freud, a psicologia profunda de Jung e agora a neurociência mostram que nosso comportamento de superfície é quase sempre produzido nas profundezas, na não-razão: como disse Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece."Freud e Jung chamam esse abismo de inconsciente. A neurociência recentemente o batizou de não-consciência. O que importa é que todos começam a reconh ecer que quase nenhum controle temos sobre nossa vida consciente. É da mente não-consciente que sobem os impulsos para o comportamento manifesto.

     Vejam que a Bíblia mostra exatamente a mesma coisa. O ser humano foi enganado por uma serpente e o próprio Deus foi quem confundiu a linguagem no episódio da Torre de Babel. Abraão recebeu uma ordem para deixar a sua parentela e partir rumo ao desconhecido. Depois recebeu a graça de gerar um filho para alguns anos mais tarde ser impelido a usá-lo em sacrifício. Moisés foi tirado do deserto e mandado quase à força para o Egito. Jó teve a vida rasgada por causa de uma disputa entre Deus e Satanás. Tudo de cima pra baixo, ou de dentro pra fora, como queiram.

     Antes da Bíblia, Hesíodo e Homero já diziam a mesma coisa através de seus poemas carregados de deuses que decidem, entre si, o destino dos homens. Vendo assim, a consciência parece ser tão somente uma espécie de parque de diversões onde forças da luz e das trevas treinam tiro ao alvo, normalmente com balas de borracha, mas, às vezes, com munição letal.

    Decidem por nós, dentro e fora de nós. Além dos sentimentos e condutas que são produzidos do lado de dentro, temos os acidentes e os incidentes que ocorrem do lado de fora. Resultado: vivemos constantemente ameaçados, tanto fora quanto dentro. Daí, vem o desespero e a ansiedade. Parece mesmo que fomos, de propósito, deixados sem controle de quase tudo que nos cerca e nos habita. Assim, ao homem não resta outra alternativa senão uma dessas três: a fé, a não-fé ou o suicídio.

     Até quando pensa estar decidindo ter fé, não é ele mesmo quem está realmente decidindo. Jesus afirmou: "Ninguém vem a mim, se o Pai não o trouxer." E quando decide não ter fé, também não é ele quem tem o controle dessa decisão. Segundo a Bíblia, "o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos para que não creiam." Ser crente ou ateu, nesse caso, é uma questão divina, ou demoníaca, não humana. Que absurdo! Ser humano, então, não é uma questão de ser, mas de não ser: não ser capaz de ser, de decidir, de exercer controle. Talvez o único controle que tem é o de tentar controlar o controle do controlador. Dai surgiu a religião, as artes mágicas e as invocações.

     Uma outra alternativa é a de reconhecer que não tem controle e de se entregar a um controle que não se submete ao seu controle, mas controla até seu reconhecimento de não ter controle e de se entregar ao Controlador. Isto é fé. Bem, nesse ponto já estou quase admitindo a doutrina calvinista da predestinação. Mas, essa doutrina diz que o ato de reconhecer que não tem controle e entregar-se ao Controlador é fruto de uma "graça irresistível" e não da voluntária decisão do crente. Talvez, por isso, alguns prefiram, como eu, a ilusão de Armínio: a doutrina da liberdade de escolha: o tal livre arbítrio. Desculpem, não tenho escolha: esse assobio arminiano me seduz e me controla mais que o assobio de Calvino, pelo menos, por enquanto!

abril 11, 2014

VIRTUDE PARA O MUNDO E PARA O PÓS MUNDO

Virtude para os gregos era a fuga dos extremos, o caminho do meio, a prudência, a moderação. Mais tarde, os cristãos, agregaram o conceito grego de virtude ao conceito de humildade e serviço ensinado por Jesus.
Já para Maquiavel, virtude é a qualidade do líder (Príncipe) que sabe se estabelecer e se manter no poder, custe o que custar.

Virtude para o cristão é serviço como favor ao próximo. Para os maquiavélicos, cristãos ou não, é a capacidade de dobrar o próximo a seu favor, de preferência, por persuasão e argumento, mas se não der certo, que seja no cacete. Nem sempre as cacetadas são físicas, mas políticas, sutis e travestidas de "amor" ao próximo.

A virtude cristã é o caminho mais difícil, menos lucrativo, mais apertado em quase todos os sentidos. Até pagar as contas básicas do cotidiano fica mais complicado. O outro tipo de virtude engorda a conta bancária, atrai amigos de ocasião e os holofotes sociais, por que a porteira é larga e muitos são os que entram por ela, inclusive, muitos que dizem andar no caminho estreito, mas que, na prática, estão mesmo é na manada.

Enquanto isto a gente se segura na esperança de que o caminho apertado é a rota certa para o céu. Mas, o céu é depois da morte que a cada dia funga mais perto no cangote. Diante disso, os maquiavélicos, riem de nós, até porque aqui na terra se dão muito bem e basta levantar a mão numa igreja de crente, depois de um sermão emocionalmente tocante, para garantir também as "ruas de ouro no céu." O cabra se dá bem aqui e também lá, dizem os inventores dessa facilidade teológica,  que adoram contabilizar o número dos que foram salvos no último domingo ou na última cruzada evangelística.

Ser cristão parece ser, às vezes, ter que viver numa prisão cinco estrelas, esperando uma mansão que está além das estrelas. Bom, deixe-me terminar, porque já estou passando do limites que o primeiro tipo de virtude me impõe. Tá vendo! Estou preso. Será que foi por isso que Paulo disse que era um "prisioneiro de Cristo?"

AS MUITAS MORADAS DA CASA DO PAI

"Na casa de meu Pai há muitas moradas... " Jo. 14. 2a  Foi com essa frase que Jesus instruiu seus seguidores a se protegerem de em...