Depois de ler "The future of Faith", de Harvey Cox, consegui sistematizar melhor uma inquietação que abrigo no coração acerca de minha devoção pessoal e minha missão pastoral.
A espiritualidade relevante para os tempos atuais tende a ser:
1. Menos doutrinária e mais experiencial.
As pessoas estão cansadas da "defesa da fé." Elas tem fome de experiência de fé; de encontro com o sagrado; de mergulhar no mistério. Uma vez que o sagrado e o mistério só se mostram através dos símbolos, a igreja precisa resgatá-los em sua liturgia e prática.
Como isso poderá ser feito. Não sei, confesso. Símbolos não são produzidos por vontade consciente. Eles vem a nós e nós os recebemos, ou não. Eles são autônomos, "numinosos." Defendo para isso, uma cultura eclesial de batismo e uma reformulação do ritual da Ceia do Senhor... Para começar.
2. Menos conceitual e mais atitudinal.
Hoje é muito mais clara a necessidade de viver de acordo com a expressão de Jesus: "Pelos frutos os conhecereis...Para que vejam as boas obras de vocês"; que tem eco em Tiago: "Que adianta alguém dizer que tem fé se não tem obras?"
Não seria o caso, da igreja repensar Lutero a partir do princípio protestante que ele mesmo inaugurou. Para mim, a Reforma não é um evento acabado, mas continuamente aberto...
3. Menos bairrista e mais dialógica.
Já passou o tempo dos coronéis e seus currais da verdade. A Verdade não é patrimônio de um grupo, é um Caminho para caminhantes sem território para defender ou ídolos para legitimá-lo.
Cristo é o caminho, e foi ele quem disse aos que se achavam donos da verdade: "Publicanos e prostitutas entrarão primeiro que vocês no reino de Deus."
É preciso estar aberto ao diálogo com o outro que pensa e age diferente. Acolher, conversar e debater, sem bater nem abater, é fundamental. Mesmo que decidamos não caminhar na mesma trilha...
julho 29, 2013
maio 29, 2012
BATISMO POR IMERSÃO OU ASPERSÃO: O QUE DIZIA A IGREJA PRIMITIVA?
Didaquê é o nome de um pequeno manual produzido pela igreja, composto entre o final do primeiro século , e o início do segundo século.
Era o equivalente a nosso atual "Regimento Interno" e tinha 3 partes: Licões cristãs, rituais (batismo e Ceia, por exemplo) e a disciplina organizacional da igreja.
Sobre a controvérsia do batismo, ou seja, se o certo é batizar por imersão, ou por aspersão, no capítulo sete está escrito:
"No que concerne ao batismo, batizem desse modo: Batizem em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em água viva [àgua corrente: rio*]. Mas se não tiver água viva, batizem em outra água; e se não puder ser em água fria, que seja em água morna. Mas,, se não tiverem nenhuma dessas águas, derramem água, três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo."
Eu ainda era pastor da Emanuel quando batizei um irmão que estava no hospital. Ele não podia andar e dava sinais de que não sairia vivo daquele leito. Sua filha me confidenciou que o maior desejo dele era não morrer sem ser batizado.
Decidi batizá-lo ali mesmo. Reuni a família ao redor da cama, pedi uma bacia com água e o batizei por aspersão.
Dois dias depois, ele faleceu.
Escrevi sobre a experiência, e o texto foi publicado em O Jornal Batista. Voces já podem imaginar que sofri retaliação! Doeu, mas serviu para cimentar, de vez, minha convicção de ter feito a coisa certa.
Depois de ler a Didaquê, fiquei contente, ao constatar, que a igreja herdeira imediata da tradição apóstólica teria me dado apoio.
*Grifo meu
dezembro 13, 2010
AFORISMOS I
1.
"O filho mais moço...Partiu para uma terra distante e ali desperdiçou a sua fazenda...E começou a padecer necessidades...E, levantando-se, foi para seu pai..." Lc. 15:11ss. Só se perde quem busca; só cresce no extravio quem tem a coragem de admitir o erro; só recobra a vida quem se eleva acima dos porcos; só é recebido quem retorna. A salvação não está na permanência, mas no retorno humilde ao ponto-de-partida.
"O filho mais moço...Partiu para uma terra distante e ali desperdiçou a sua fazenda...E começou a padecer necessidades...E, levantando-se, foi para seu pai..." Lc. 15:11ss. Só se perde quem busca; só cresce no extravio quem tem a coragem de admitir o erro; só recobra a vida quem se eleva acima dos porcos; só é recebido quem retorna. A salvação não está na permanência, mas no retorno humilde ao ponto-de-partida.
2.
"Não julgueis para que não sejais julgados..." Mt. 7:1. O princípio de "causa e efeito" é parte das grandes religiões, incluindo o cristianismo. Em nosso caso, a doutrina da salvação pela graça diminue o impacto do tema sobre nossa ética, tanto no plano individual, quanto no coletivo. Todavia, ensinar que "tudo aquilo que o homem semear, isso também ceifará" (Gl. 6:7), poderia salvar a próxima geração de "crentes."
3.
Pensando na relação da igreja com a cultura: a igreja que julga a cultura, deve necessariamente julgar a si mesma, porque ela é parte da cultura que julga. Seu grande problema é que estica o dedo para condenar o mundo e se esquece de pronuciar a sentença contra sua própria face degenerada. Se começar a praticar o autojulgamento, contribuirá para salvar a próxima geração de crentes.
4.
Qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está?" I Cor. 2:11. Nosso espírito (self) conhece nossos desejos e sentimentos. Paulo o chama de "homem interior" Ef.(2:16); Tillich, de "razão profunda." De fato, quem entra pela porta do seu "eu" profundo, via divã, trabalho com sonhos, meditação, oração, ou tudo isso junto, acessa informações sobre si mesmo que sua razão desconhece
5.
a alma individual e a alma coletiva se parecem muito, pois, o todo é a somatória das partes. O que encontramos no coração do homem, encontramos também no coração social: o claro e o escuro, a superfície e o profundo, a doçura e a violência, a santo e promíscuo...
6.
"...Porque, quando estou fraco, então, sou forte." II Cor. 12:10. Paulo já mostrava em seu tempo o que Carl Jung afirmaria no século XX: aquilo que temos na mente de superfície é compensado por um conteúdo oposto na mente profunda. Nesse sentido, quando nossa consciência está em fraqueza, nosso inconsciente nos comunica força, tentando promover o equilíbrio psíquico, sem o qual, viver seria um inferno
7.
"Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal..." Mt. 5:39. Jesus ensinou que não devemos resistir ao mal, usando o mal, mas com ações não esperadas pelo mal (Mt.5:40-42). Nesse rastro, Gandhi e M. Luther King Jr., nos ensinaram o método da "resistência não-violenta." Eles entenderam que poder e violência se amam, e o método do "olho por olho" daria à logística do poder, mais poder, com mais sede de sangue.
8.
"E sendo por divina revelação avisados em sonho...Partiram para sua terra..." Mt. 2:12. Os sonhos vem de uma região de nossa psique, o self, que faz fronteira com a dimensão espiritual, nosso fundamento. O self é o portal de comunicação entre o orgânico e o espiritual, portanto, escutá-lo, também, pelos sonhos, pode nos fazer afirmar, como Jacó: "Deus está neste lugar, e eu não sabia." Gn. 28:16
9.
"Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor." Lm. 3:26. De tempos em tempos, Deus leva seus filhos ao deserto para lhes falar ao coração. Isto se faz necessário, pois, no barulho dos aplausos, sob holofotes e mimos, a voz de Deus é sufocada. Porém, no exílio, a energia vem da esperança, e o encontro com Deus ocorre no silêncio da graça soprada na caverna.
setembro 05, 2010
PSICOLOGIA DA CONVERSÃO RELIGIOSA
“Na verdade, na verdade, te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.”
Jo. 3:3
Quando criança aprendi que a salvação pode ser contada nos cinco dedos: “Eu pequei, Deus me ama, Cristo morreu por mim, eu aceito, estou salvo.” Simples, assim. Entretanto, o “novo nascimento”, obra da conversão, sempre foi um mistério compreendido como fenômeno transcendente, isto é, como ação de Deus para salvar o homem “das trevas para sua maravilhosa luz.”
William James, pai da psicologia americana, define conversão como um processo progressivo (“volitional type”), ou de súbita rendiçao do self (“self-surrender type”), em que ideias periféricas se deslocam para o centro da estrutura mental. E se essa alteração tiver um componente emocional forte, torna-se hábito e caracteriza a transformação tão exaltada na pregação. O contrário, também é verdadeiro, ou seja, sem um componente fixador forte, o que hoje é central, pode rapidamente ceder lugar a outro complexo de ideias e o vigor religioso se perde. Basta ler a parábola do semeador para compreende melhor esse processo.
Por esse viés, podemos entender a diferença entre conversão e adesão. Adesão religiosa é apenas a decisão do ego de se apegar a uma estrutura religiosa que lhe facilite alcançar objetivos na vida. Em vez de conversão para o self , o ego salta para conquistar o mundo de fora. É aquilo que Gordon Alport chamou de “atitude religiosa extrínseca”, isto é, o sujeito pratica a religião, porque leva com isso alguma vantagem, psicológica e, ou social. Não porque ama a Deus, e pratica a devoção como “atitude religiosa intrínseca”, mas pelo que pode colher para si ao vincular-se a um grupo religioso.
Por outro lado, a Psicologia Profunda afirma que conversão genuína é mais do que deslocamento de conteúdos mentais periféricos para o centro da estrutura da mente. A conversão é a reconciliação do ego com o Pai que habita as profundezas; com o Espírito, no inconsciente. A salvação só se dá com a re-união dos opostos nas regiões celestes da psique.
A parábola do filho pródigo ilustra muito bem esse processo: o ego (filho mais moço) fere a unidade da casa (psique), ao se descolar do Pai (queda), “ganha o mundo, mas perde a alma”, e da pocilga (condenação), cai em si. Arrependido, se levanta e caminha de volta ao lar (conversão); é recebido pelo Pai, e a unidade da casa é restabelecida, porque ele “estava morto e reviveu (novo nascimento), tinha-se perdido e foi achado.” No final, quando a parábola diz que “começaram a alegrar-se” indica que a vida abundante de Jesus (Jo. 10:10) - autoatualização para Rogers, autorealização para Maslow e “individuação” para Jung - é o resultado dessa conversão.
Nesse sentido, a saga redentora do Cristo tem um correspondente psicológico. Isto pode ser compreendido ao parafrasearmos, em linguagem psicológica, Filipenses 2:1-10: De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que sendo em forma de Self, não teve por usurpação o ser igual ao Self, mas aniquilou-se a si mesmo (queda voluntária) tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante (encarnação) ao ego, e achado na forma de ego, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz...” Assim, o mito da redenção, tem menos cheiro de crueldade sanguinária de um Deus que exige reparação violenta, e passa a significar a morte voluntária do ego e sua ressurreição para uma vida glorificada (Fil. 2:9,10).
A cruz é central na conversão porque é nele que o ego é sacrificado. É nesse calvário existencial que ocorre a morte da autonomia egóica. A autonomia dá lugar a teonomia, porque o ego caído não pode ver o reino de Deus sem um novo nascimento, isto é, sem que seja nascido do Espírito (Jo. 3:5,6), revestido da espiritualidade perdida (Ef. 2:5). O novo nascimento é a ressurreição do ego num corpo glorificado (novo ser), espiritual, em vôo para o alto (Col. 3:3), porque a ressurreição demanda a ascenção ao lugar de origem (Ef. 2:6).
É nesse sentido que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Ao seguir o caminho da cruz, e somente por ele, o ego re-encontra o Pai e celebra a vida, pois, cortado da videira-self, nada pode fazer (Jo. 15:4,5), a não ser, se debater para “ganhar o mundo inteiro” e adoecer das psicopatologias e psicossomatologias da vida cotidiana. Assim, é bem melhor para o ego morrer voluntariamente a morte de cruz e nascer de novo para uma vida nova, retomando a sintonia com o mundo de dentro, onde está o novo Éden. Ef. 2: 16
Referências bibliográficas
James, WILLIAM. The Varieties of Religious Experience. New York, Barnes and Noble, 1994
Alport, GORDON. Becoming – Basic Considerations for a Psychology of Personality. Clinton - University of Yale Press, 1955
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