“Na verdade, na verdade, te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.”
Jo. 3:3
Quando criança aprendi que a salvação pode ser contada nos cinco dedos: “Eu pequei, Deus me ama, Cristo morreu por mim, eu aceito, estou salvo.” Simples, assim. Entretanto, o “novo nascimento”, obra da conversão, sempre foi um mistério compreendido como fenômeno transcendente, isto é, como ação de Deus para salvar o homem “das trevas para sua maravilhosa luz.”
William James, pai da psicologia americana, define conversão como um processo progressivo (“volitional type”), ou de súbita rendiçao do self (“self-surrender type”), em que ideias periféricas se deslocam para o centro da estrutura mental. E se essa alteração tiver um componente emocional forte, torna-se hábito e caracteriza a transformação tão exaltada na pregação. O contrário, também é verdadeiro, ou seja, sem um componente fixador forte, o que hoje é central, pode rapidamente ceder lugar a outro complexo de ideias e o vigor religioso se perde. Basta ler a parábola do semeador para compreende melhor esse processo.
Por esse viés, podemos entender a diferença entre conversão e adesão. Adesão religiosa é apenas a decisão do ego de se apegar a uma estrutura religiosa que lhe facilite alcançar objetivos na vida. Em vez de conversão para o self , o ego salta para conquistar o mundo de fora. É aquilo que Gordon Alport chamou de “atitude religiosa extrínseca”, isto é, o sujeito pratica a religião, porque leva com isso alguma vantagem, psicológica e, ou social. Não porque ama a Deus, e pratica a devoção como “atitude religiosa intrínseca”, mas pelo que pode colher para si ao vincular-se a um grupo religioso.
Por outro lado, a Psicologia Profunda afirma que conversão genuína é mais do que deslocamento de conteúdos mentais periféricos para o centro da estrutura da mente. A conversão é a reconciliação do ego com o Pai que habita as profundezas; com o Espírito, no inconsciente. A salvação só se dá com a re-união dos opostos nas regiões celestes da psique.
A parábola do filho pródigo ilustra muito bem esse processo: o ego (filho mais moço) fere a unidade da casa (psique), ao se descolar do Pai (queda), “ganha o mundo, mas perde a alma”, e da pocilga (condenação), cai em si. Arrependido, se levanta e caminha de volta ao lar (conversão); é recebido pelo Pai, e a unidade da casa é restabelecida, porque ele “estava morto e reviveu (novo nascimento), tinha-se perdido e foi achado.” No final, quando a parábola diz que “começaram a alegrar-se” indica que a vida abundante de Jesus (Jo. 10:10) - autoatualização para Rogers, autorealização para Maslow e “individuação” para Jung - é o resultado dessa conversão.
Nesse sentido, a saga redentora do Cristo tem um correspondente psicológico. Isto pode ser compreendido ao parafrasearmos, em linguagem psicológica, Filipenses 2:1-10: De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que sendo em forma de Self, não teve por usurpação o ser igual ao Self, mas aniquilou-se a si mesmo (queda voluntária) tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante (encarnação) ao ego, e achado na forma de ego, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz...” Assim, o mito da redenção, tem menos cheiro de crueldade sanguinária de um Deus que exige reparação violenta, e passa a significar a morte voluntária do ego e sua ressurreição para uma vida glorificada (Fil. 2:9,10).
A cruz é central na conversão porque é nele que o ego é sacrificado. É nesse calvário existencial que ocorre a morte da autonomia egóica. A autonomia dá lugar a teonomia, porque o ego caído não pode ver o reino de Deus sem um novo nascimento, isto é, sem que seja nascido do Espírito (Jo. 3:5,6), revestido da espiritualidade perdida (Ef. 2:5). O novo nascimento é a ressurreição do ego num corpo glorificado (novo ser), espiritual, em vôo para o alto (Col. 3:3), porque a ressurreição demanda a ascenção ao lugar de origem (Ef. 2:6).
É nesse sentido que Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Ao seguir o caminho da cruz, e somente por ele, o ego re-encontra o Pai e celebra a vida, pois, cortado da videira-self, nada pode fazer (Jo. 15:4,5), a não ser, se debater para “ganhar o mundo inteiro” e adoecer das psicopatologias e psicossomatologias da vida cotidiana. Assim, é bem melhor para o ego morrer voluntariamente a morte de cruz e nascer de novo para uma vida nova, retomando a sintonia com o mundo de dentro, onde está o novo Éden. Ef. 2: 16
Referências bibliográficas
James, WILLIAM. The Varieties of Religious Experience. New York, Barnes and Noble, 1994
Alport, GORDON. Becoming – Basic Considerations for a Psychology of Personality. Clinton - University of Yale Press, 1955
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