A psicanálise de Freud, a psicologia profunda de Jung e agora a neurociência mostram que nosso comportamento de superfície é quase sempre produzido nas profundezas, na não-razão: como disse Pascal, "o coração tem razões que a razão desconhece."Freud e Jung chamam esse abismo de inconsciente. A neurociência recentemente o batizou de não-consciência. O que importa é que todos começam a reconh ecer que quase nenhum controle temos sobre nossa vida consciente. É da mente não-consciente que sobem os impulsos para o comportamento manifesto.
Vejam que a Bíblia mostra exatamente a mesma coisa. O ser humano foi enganado por uma serpente e o próprio Deus foi quem confundiu a linguagem no episódio da Torre de Babel. Abraão recebeu uma ordem para deixar a sua parentela e partir rumo ao desconhecido. Depois recebeu a graça de gerar um filho para alguns anos mais tarde ser impelido a usá-lo em sacrifício. Moisés foi tirado do deserto e mandado quase à força para o Egito. Jó teve a vida rasgada por causa de uma disputa entre Deus e Satanás. Tudo de cima pra baixo, ou de dentro pra fora, como queiram.
Antes da Bíblia, Hesíodo e Homero já diziam a mesma coisa através de seus poemas carregados de deuses que decidem, entre si, o destino dos homens. Vendo assim, a consciência parece ser tão somente uma espécie de parque de diversões onde forças da luz e das trevas treinam tiro ao alvo, normalmente com balas de borracha, mas, às vezes, com munição letal.
Decidem por nós, dentro e fora de nós. Além dos sentimentos e condutas que são produzidos do lado de dentro, temos os acidentes e os incidentes que ocorrem do lado de fora. Resultado: vivemos constantemente ameaçados, tanto fora quanto dentro. Daí, vem o desespero e a ansiedade. Parece mesmo que fomos, de propósito, deixados sem controle de quase tudo que nos cerca e nos habita. Assim, ao homem não resta outra alternativa senão uma dessas três: a fé, a não-fé ou o suicídio.
Até quando pensa estar decidindo ter fé, não é ele mesmo quem está realmente decidindo. Jesus afirmou: "Ninguém vem a mim, se o Pai não o trouxer." E quando decide não ter fé, também não é ele quem tem o controle dessa decisão. Segundo a Bíblia, "o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos para que não creiam." Ser crente ou ateu, nesse caso, é uma questão divina, ou demoníaca, não humana. Que absurdo! Ser humano, então, não é uma questão de ser, mas de não ser: não ser capaz de ser, de decidir, de exercer controle. Talvez o único controle que tem é o de tentar controlar o controle do controlador. Dai surgiu a religião, as artes mágicas e as invocações.
Uma outra alternativa é a de reconhecer que não tem controle e de se entregar a um controle que não se submete ao seu controle, mas controla até seu reconhecimento de não ter controle e de se entregar ao Controlador. Isto é fé. Bem, nesse ponto já estou quase admitindo a doutrina calvinista da predestinação. Mas, essa doutrina diz que o ato de reconhecer que não tem controle e entregar-se ao Controlador é fruto de uma "graça irresistível" e não da voluntária decisão do crente. Talvez, por isso, alguns prefiram, como eu, a ilusão de Armínio: a doutrina da liberdade de escolha: o tal livre arbítrio. Desculpem, não tenho escolha: esse assobio arminiano me seduz e me controla mais que o assobio de Calvino, pelo menos, por enquanto!
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