Em meu tempo devocional de oração, pouco me preocupava o fato de estar ou não sendo ouvido por Deus
numa perspectiva pessoal. O que importava era a minha alma que se lançava ao Espírito, e isso era o suficiente. Mas, em muitas ocasiões achei que escutava a voz de Deus e em seguida agi a partir dessa escuta subjetiva. No cotidiano, entretanto, muitas dessas falas, supostamente divinas, não se confirmaram de fato, o que me leva a pensar que muitas de minhas subjetivações, “made in” Deus, não passam disso: subjetivações. Dai minha desconfiança quando escuto no evangeliquês corrente alguma expressão do tipo: “Deus me falou."
Nos últimos anos, devido à minha necessidade imperiosa
de transcendência, desenvolvi uma certa
decepção por não ser tratado por Deus numa perspectiva de comunicação
interpessoal instantânea, como duas pessoas interagindo em tempo real. Confesso
que algumas vezes me recusei a construir frases ao orar porque não
via razão em falar, falar, falar e nada escutar como resposta imediata e em
linguagem direta e inteligível. Meu
sentimento hoje, porém, é de que essa necessidade de escutar Deus, num nível de
comunicação direta, pessoal e quase audível, é um infantilismo sem
sustentação no mundo real. Deus não tem de me responder num nível pessoal como
se fosse alguém de carne e osso. Por isso, para o bem da saúde psicológica e espiritual do devoto, é importante entender
que a relação com Deus deve transcender o eixo pessoa-pessoa e alcançar a maturidade
do nível pessoa-em-Espírito (Gl. 5:16). O termo pessoa-em-Espírito implica em
responsabilidade histórica, pois ser pessoa é ser pessoa-no-mundo. É ser parte
de uma teia de relações. Mas somente quando esse imperativo de ter-de-viver-no-mundo
dá lugar à fé, é que nasce a consciência de ser-para-além-do-mundo. Fé, portanto, é
um salto para fora da história a partir da história e, ao mesmo tempo, um constante
exercício de revisão e correção da história a partir de seu Fundamento
não-histórico.
Mas, afinal de contas, Deus é pessoa ou não-pessoa? Jesus
ensinou que “Deus é Espírito” (Jo. 4.24). Espírito não é pessoa, embora tendo
consciência-de-ser ou, como diria Paul Tillich, consciência de ser o Fundamento
do Ser. Quando Moisés quis saber o nome de Deus, para legitimar politicamente a
sua missão de libertar os Hebreus do Egito, ele ouviu: "Eu Sou o que Sou. É isto que você
dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês." Não creio
que Deus seja mera energia sem pessoalidade. Nesse caso, pessoalidade não é o
mesmo que personalidade. Qual é a diferença? Pessoalidade é a capacidade de
estabelecer relação, afetar e, num certo sentido, ser afetado na relação. Personalidade
é um conjunto de características de uma pessoa, em particular. A presença de Deus não é necessariamente presença
pessoal, mas presença implícita. Presença
pessoal implica numa pessoa que pode estar ou não geograficamente presente - aqui,
presença e ausência se alternam no nível perceptivo. Por outro lado, presença
implícita implica em ininterrupta presença, mesmo quando não sentida ou
percebida. Por exemplo: No salmo 139 o poeta é capaz de intuir a presença implícita de Deus
quando diz:
“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe
percebes os meus pensamentos. Sabes
muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem
conhecidos. Antes mesmo que a
palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor.
Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a
tua mão sobre mim. Tal
conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que
não o posso atingir. Para onde
poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença?
Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a
minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar,
mesmo ali a tua mão direita me guiará e me
susterá.” Salmos 139:1-10 (NVI)
Deus deve ser intuido como pessoa somente na medida em
que nos afeta pessoalmente. Quando a relação nos afeta no profundo, para além da
dimensão cognitiva, isto é, quando o conhecimento de Deus atinge o existencial,
e não fica somente no plano teórico, é que podemos dizer que a relação é pessoal; não porque Deus seja pessoa, mas porque nos afeta pessoalmente. Nesse sentido,
o “Eu Sou” se identifica com aqueles que são afetados por sua presença. Na
sequência da apresentação de suas credenciais a Moisés, Deus arrematou: "Diga aos israelitas: O Senhor, o
Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó,
enviou-me a vocês. Esse é o meu nome para sempre, nome pelo qual serei lembrado
de geração em geração" (Ex.3:15). O “Eu Sou” transcendente, inominável e
insondável tem seu rastro na história e na
memória primordial de quem crê.
Se eu quero um Deus pessoal, sua presença é intermitente,
isto é, pontuada por ausências. Sinto sua presença quando minha subjetividade
está alinhada. Quando não, passo a sofrer de
solidão teológica, o que significa dizer que minha relação com Deus
depende do humor do ambiente inter-intra-relacional, e até dos hormônios que
afetam o funcionamento de meu sistema nervoso central. Por outro lado, se quero
Deus como Espírito, sua presença é imediata, isto é, não há ausências, mesmo
quando minha subjetividade está desalinhada. Assim, não sou mais envelopado pela
solidão teológica, o que significa dizer que minha relação com Deus não depende
mais do humor do ambiente inter-intra-relacional, nem dos hormônios que me
afetam. Como ser bio-psicossocial e espiritual, não preciso sentir sua presença
para cultivar a alegria de viver, nem preciso sentir sua ausência para cair no
desespero. Graça e des-graça se alternam na existência, quer eu sinta a presença
de Deus ou não.
A subjetividade é essencial, mas o subjetivismo, ou seja, o culto à não-razão, pode ser uma arapuca. Portanto, digo a mim mesmo e a quem mais quiser me escutar: siga o fluxo do divino que lhe guia a partir do espírito, mas ancore suas decisões também no bom senso e na capacidade racional de avaliar a realidade: escolher, refletir, corrigir e recomeçar. No mais, não cultive o imperativo de ter de sentir Deus, apenas siga-o no rastro do Homem de Nazaré.
A subjetividade é essencial, mas o subjetivismo, ou seja, o culto à não-razão, pode ser uma arapuca. Portanto, digo a mim mesmo e a quem mais quiser me escutar: siga o fluxo do divino que lhe guia a partir do espírito, mas ancore suas decisões também no bom senso e na capacidade racional de avaliar a realidade: escolher, refletir, corrigir e recomeçar. No mais, não cultive o imperativo de ter de sentir Deus, apenas siga-o no rastro do Homem de Nazaré.
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