maio 26, 2016

A PRESENÇA E AUSÊNCIA DO DEUS PESSOAL

Em meu tempo devocional de oração, pouco me preocupava o fato de estar ou não sendo ouvido por Deus 
numa perspectiva pessoal. O que importava era a minha alma que se lançava ao Espírito, e isso era o suficiente. Mas, em muitas ocasiões achei que escutava a voz de Deus e em seguida agi a partir dessa escuta subjetiva. No cotidiano, entretanto, muitas dessas falas, supostamente divinas, não se confirmaram de fato, o que me leva a pensar que muitas de minhas subjetivações, “made in” Deus, não passam disso: subjetivações. Dai minha desconfiança quando escuto no evangeliquês corrente alguma expressão do tipo: “Deus me falou." 

        Nos últimos anos, devido à minha necessidade imperiosa de transcendência,  desenvolvi uma certa decepção por não ser tratado por Deus numa perspectiva de comunicação interpessoal instantânea, como duas pessoas interagindo em tempo real. Confesso que algumas vezes me recusei a construir frases ao orar porque não via razão em falar, falar, falar e nada escutar como resposta imediata e em linguagem direta e inteligível.  Meu sentimento hoje, porém, é de que essa necessidade de escutar Deus, num nível de comunicação direta, pessoal  e  quase audível, é um infantilismo sem sustentação no mundo real. Deus não tem de me responder num nível pessoal como se fosse alguém de carne e osso. Por isso, para o bem da saúde psicológica  e espiritual do devoto, é importante entender que a relação com Deus deve transcender o eixo pessoa-pessoa e alcançar a maturidade do nível pessoa-em-Espírito (Gl. 5:16). O termo pessoa-em-Espírito implica em responsabilidade histórica, pois ser pessoa é ser pessoa-no-mundo. É ser parte de uma teia de relações. Mas somente quando esse imperativo de ter-de-viver-no-mundo dá lugar à fé, é que nasce a consciência de ser-para-além-do-mundo. Fé, portanto, é um salto para fora da história a partir da história e, ao mesmo tempo, um constante exercício de revisão e correção da história a partir de seu Fundamento não-histórico.

        Mas, afinal de contas, Deus é pessoa ou não-pessoa? Jesus ensinou que “Deus é Espírito” (Jo. 4.24). Espírito não é pessoa, embora tendo consciência-de-ser ou, como diria Paul Tillich, consciência de ser o Fundamento do Ser. Quando Moisés quis saber o nome de Deus, para legitimar politicamente a sua missão de libertar os Hebreus do Egito, ele ouviu: "Eu Sou o que Sou. É isto que você dirá aos israelitas: Eu Sou me enviou a vocês." Não creio que Deus seja mera energia sem pessoalidade. Nesse caso, pessoalidade não é o mesmo que personalidade. Qual é a diferença? Pessoalidade é a capacidade de estabelecer relação, afetar e, num certo sentido, ser afetado na relação. Personalidade é um conjunto de características de uma pessoa, em particular.  A presença de Deus não é necessariamente presença pessoal,  mas presença implícita. Presença pessoal implica numa pessoa que pode estar ou não geograficamente presente - aqui, presença e ausência se alternam no nível perceptivo. Por outro lado, presença implícita implica em ininterrupta presença, mesmo quando não sentida ou percebida. Por exemplo: No salmo 139 o poeta é capaz de intuir a presença implícita de Deus quando diz:

“Senhor, tu me sondas e me conheces. Sabes quando me sento e quando me levanto; de longe percebes os meus pensamentos. Sabes muito bem quando trabalho e quando descanso; todos os meus caminhos te são bem conhecidos. Antes mesmo que a palavra me chegue à língua, tu já a conheces inteiramente, Senhor. Tu me cercas, por trás e pela frente, e pões a tua mão sobre mim. Tal conhecimento é maravilhoso demais e está além do meu alcance, é tão elevado que não o posso atingir. Para onde poderia eu escapar do teu Espírito? Para onde poderia fugir da tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar, mesmo ali a tua mão direita me guiará e me susterá.Salmos 139:1-10 (NVI)

Deus deve ser intuido como pessoa somente na medida em que nos afeta pessoalmente. Quando a relação nos afeta no profundo, para além da dimensão cognitiva, isto é, quando o conhecimento de Deus atinge o existencial, e não fica somente no plano teórico, é que podemos dizer que a relação é pessoal; não porque Deus seja pessoa, mas porque nos afeta pessoalmente. Nesse sentido, o “Eu Sou” se identifica com aqueles que são afetados por sua presença. Na sequência da apresentação de suas credenciais a Moisés, Deus arrematou: "Diga aos israelitas: O Senhor, o Deus dos seus antepassados, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de Jacó, enviou-me a vocês. Esse é o meu nome para sempre, nome pelo qual serei lembrado de geração em geração" (Ex.3:15). O “Eu Sou” transcendente, inominável e insondável  tem seu rastro na história e na memória primordial de quem crê.

        Se eu quero um Deus pessoal, sua presença é intermitente, isto é, pontuada por ausências. Sinto sua presença quando minha subjetividade está alinhada. Quando não, passo a sofrer de  solidão teológica, o que significa dizer que minha relação com Deus depende do humor do ambiente inter-intra-relacional, e até dos hormônios que afetam o funcionamento de meu sistema nervoso central. Por outro lado, se quero Deus como Espírito, sua presença é imediata, isto é, não há ausências, mesmo quando minha subjetividade está desalinhada. Assim, não sou mais envelopado pela solidão teológica, o que significa dizer que minha relação com Deus não depende mais do humor do ambiente inter-intra-relacional, nem dos hormônios que me afetam. Como ser bio-psicossocial e espiritual, não preciso sentir sua presença para cultivar a alegria de viver, nem preciso sentir sua ausência para cair no desespero. Graça e des-graça se alternam na existência, quer eu sinta a presença de Deus ou não. 

        A subjetividade é essencial, mas o subjetivismo, ou seja, o culto à não-razão, pode ser uma arapuca. Portanto, digo a mim mesmo e a quem mais quiser me escutar: siga o fluxo do divino que lhe guia a partir do espírito, mas ancore suas decisões também no bom senso e na capacidade racional de avaliar a realidade: escolher, refletir, corrigir e recomeçar. No mais, não cultive o imperativo de ter de sentir Deus, apenas siga-o no rastro do Homem de Nazaré. 

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